sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

(Continuação 10)

Sétima Carta do Barão de Forrester


Apesar de se não poder fazer sempre a viagem da Régua ao Pinhão num dia, eu a farei nesta carta para que a descrição se torne mais interessante.
Já disse que os rios Corgo e Barosa separam o Baixo do Cima Corgo – o rio Pinhão separa este do resto do distrito vinhateiro, que eu chamo o Alto Douro.
O Corgo, chamado Corrugo pelos romanos, nasce nas vizinhanças de Vila Pouca, passa por Vila Real, recebe as águas do Tanha ao pé da Vila da Presegueda e cai no Douro entre a Régua e Canelas.
Os rios tributários do Douro entre o Corgo e o Pinhão são o Tedo, o Távora, e o Torto.
O Távora, ou Soberbo, tem origem numa fonte de Trancoso e aumentado por diversos ribeiros e regatos, divide os dois bispados de Viseu e Lamego, passa pela Vila de Távora e o Lugar de Tabuaço e daí caminha para o Douro.
Este rio deu o seu nome à ilustre família dos Távoras, e mandou-se chamar Soberbo, depois que o último marquês daquele título padeceu ignominiosa morte no Cais da Belém a 13 de Janeiro de 1759, por alegarem ter ele parte na conjuração contra El-Rei D. José I; porém o rio é ainda vulgarmente conhecido pelo seu antigo nome.
Na marca actual do Douro, os rios Corgo, Tua, Barosa e Távora, apenas são pequenos regatos – e os rios Tedo e Torto estão secos de todo.
Há poucas propriedades nas margens do Douro, desde o Piar até à Barca d’Alva que eu não possa descrever com a mesma exactidão como se fosse seu próprio dono – porém se eu declarasse que uma grande parte do vinho oferecido à venda nas adegas mais bem situadas, indicando estas uma por uma, não é produzido dentro da demarcação da Feitoria, mas trazido de muitas léguas de distância em odres – se mencionasse os nomes daqueles que em outro tempo não se envergonhavam de declarar que não havia baga nem mixórdias no Douro, sendo eles os principais cultivadores de sabugueiros e praticantes de adulterações – se indicasse a extensão de outras propriedades mencionando o número de alqueires de centeio que levam de semeadura – se enfim eu marcasse os sítios dos mais finos vinhos brancos ou tintos, notando quem se mostra mais amigo das castas de bastardo e arvarilhão, e quem prefere as de Touriga e Souzão, dizendo só a verdade e desmascarando os maiores inimigos da prosperidade ao seu país, iria contudo ofender interesses particulares e embrulhar alguns inocentes com culpados, e por isso, por enquanto, limitar-me-ei a descrever o que como viajante vi e presenciei ou o que por muitas vezes tenho visto mas sem me ocupar com individualidades.
Ambas as margens do rio nesta extensão de 4 léguas são muito elevadas e estão cobertas de vinhas – havendo entre elas bastante azeite. Agora não se pode falar nesta propriedade, porque pertence ela a um dos actuais ministros, logo as más-línguas haviam de dizer que eu pretendia dele algum crachá.
Na Folgosa e no Pinhão costuma às vezes haver bom carneiro, mas geralmente o carneiro deste país e muito magro e rijíssimo. O pão de Lamego e Portelo é o que se gasta na Régua e Folgosa: - no Pinhão acha-se a vender pão de Provesende a Favaios. É digno de se notar que até aqui todo o pão é de trigo e milhão, e só daqui para cima é que principia a haver pão de centeio.
Numa estalagem do Pinhão onde mandei recolher três cavalos meus, por uma noute, em razão da escassez de palha e grão, custou-me a sua ração dous mil e trezentos reis.
Já tenho dito que, ainda que no Piar principiem os xistos, não há pedras no rio, (exceptuando algumas de pequena dimensão no sítio da Sermenha, Corvaceira e Salgueiral) até ao Corgo: porém há-de ser difícil acreditar que exista nos países menos civilizados rio algum que se ache em tal estado do maior abandono, com tantas pedras à vista e tão fáceis de tirar como as que actualmente existem entre o Corgo e o Pinhão.
Quantas leis e decretos se têm feito ordenando impostos para melhorar a navegação do rio e tratar das obras da barra! Desta mesma barra em que os cartagineses de Himilcão naufragaram no ano do mundo 3531. Tenho todos esses decretos na minha colecção de papéis curiosos, mas por mais diligências que tenha feito não vinte e tantos anos que conheço o rio Douro, ainda ninguém me tem podido informar do destino que se tem dado aos impostos do rio e aos da barra. É verdade que 200 reis em pipa "para as pedras" não havia de render mais do que uns vinte contos anuais; porém em 10 anos importaria em duzentos contos e com tal soma muitas e importantíssimas obras se poderiam ter feito; muito preciosas vidas se teriam salvado e grandes valores de fazendas se não haveriam perdido.
Sobre estradas achamos de bastante interesse o Alvará de 13 de Dezembro de 1788, em que a Soberana declara que "sendo plenamente informada de que havendo-se dificultado pelas ruinas em que se acham as estradas que decorrem por uma e outra parte do Alto Douro o beneficio de todos que comerceiam em vinhos daquele distrito e sendo deste inconveniente também uma das causas principais, a de não haver na longitude daquele distrito uma estrada que sirva de auxilio à navegação dos barcos que sobem e descem pelo Rio Douro, nos tempos em que a nímia abundância ou a grande falta de águas dele dificultam, a sua pronta navegação, sou servida ordenar que se construam as referidas estradas, na forma mais pronta e perfeita, de que os respectivos terrenos forem capazes etc, etc."
Tem decorrido 66 anos e as estradas ainda ficam em projecto!!!
Os arrais chamam pontos ou galeiras, aos obstáculos à navegação e em uma das minhas obras já publicadas menciono que existem tem todo o rio 210 destes pontos, todos os quais estão actualmente à vista. Os pontos do Corgo, Bagauste, Outeiro de Covelinhas, S. Martinho, Moreirinha, Seco do Ferrão, ponto novo do Ferrão, Canal de Moura, Cachucha, Chanceleiros, Oliveirinha, e Sopas ou Buxeiro, são objectos que envergonham o actual governo de Portugal, por serem estes de fácil melhoramento. Quanto ao ponto do Canal das Marcas, o seu concerto seria mais custoso.
Julgo, Srs. Redactores, que os seus dignos compatriotas não levarão a mal as impressões de que me tenho servido, filhas do vivo interesse que tomo na prosperidade deste país, escrevendo na minha barquinha estas cartas e subindo estes mesmos pontos à força de trabalho dos infelizes marinheiros, trabalho que bem podia evitar-se.

Sou de VV
J.J. Forrester



Observações:

- O rio Pinhão nasce na Fonte de São João, no lugar de Raiz do Monte da freguesia de Vreia de Jales, no concelho de Vila Pouca de Aguiar e é um afluente da margem direita do rio Douro, após um percurso de cerca de 30 km de extensão, desaguando na Vila do Pinhão. Inaugurada em 2008 a Barragem do Pinhão, instalada no curso do rio, abastece os concelhos de Vila Real, Sabrosa, Peso da Régua, Murça, Alijó, Santa Marta de Penaguião e Mesão Frio.
- O rio Távora tem extensão de cerca de 70 km.

De 335 marcos, o Marco Pombalino nº 7 da Quinta da Manuela



Vista do Pinhão a partir do miradouro de Casal de Loivos – Ed. Roteiro do Douro

Barco rabelo navegando no rio Douro, com vista para a cidade da Régua em 1900

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

(Continuação 9)

Sexta Carta do Barão de Forrester 

Na nossa última carta dissemos que no Piar não existia indício algum de ter havido princípio de estrada em comunicação com a ponte que neste sítio se tentou fazer. Este facto é mais notável quando se vê no Elucidário de Viterbo que:
“El-Rei D. Dinis no ano de 1301 fez romper novas estradas por cima da sua Ponte do Douro em direitura a Canaveses”
Naquela época podia-se servir da palavra estrada, falando de qualquer caminho insignificante; porém, pelo que vimos nas nossas digressões de Penafiel até Mesão Frio por Canaveses e Marco, em alguns sítios é mesmo dificultoso passar um homem a cavalo.
O Piar não é somente notável por ser um sítio de muita passagem no XIII século, mas por ser o sítio onde acabam os granitos e principiam os xistos, e o país vinhateiro do Alto Douro.
O Douro faz bastantes voltas entre o Piar e a Régua – as suas margens são muito elevadas e cobertas de vinhas, entre as quais se notam alguns pomares e grande número de sabugueiros.
O rio leva mui pouca água – não se vêm pedras algumas, ainda que enormes bancos de areia estão depositados sobre grandes açudes de pedra de lousa.
Na margem direita notam-se os povos de Barqueiros, Mesão Frio, Cedadelhe, Oliveira, Fontelas, Caldas de Moledo, Salgueiral, Jugueiros, Régua e Peso.
Na margem esquerda temos Portagens, Vilar, Barô, Valonguinho, Moledo, Penajóia, Corvaceira, Samodães, Cambres e Portelo meia légua distante de Lamego.
Barqueiros é a primeira terra dos arrais e marinheiros – é abundante em vinhos e frutas mas a povoação é miserável e os habitantes pobríssimos.
Mesão Frio é uma vila bastante grande, situada no cume da montanha, tendo excelentes casas e a sua rua principal a mais bem calçada possível, formando parte da nova e excelente estrada real de Amarante à Régua. Sendo esta vila a principal entre Canaveses, Amarante e Lamego, já em 1097 o Conde D. Henrique e a piíssima rainha Dª. Teresa compraram nas suas vizinhanças umas casas para albergaria dos pobres, enfermos e peregrinos, e vê-se no citado Elucidário que a mesma rainha Dª. Teresa: “coutara a Gonçalo de Eriz a Quinta de Oseloa, e que de mão comum estabeleceram uma Albergaria em Meigomfrio, junto da mesma quinta, de cujos rendimentos se satisfariam os encarregados da dita albergaria,” – da mesma forma que “esta santa rainha estabeleceu a barca de Por Deus, a albergaria no lugar de Moledo, a de Amarante e Canaveses.”
A ideia vulgar por todos estes sítios, é que foi a rainha Santa Mafalda a fundadora destes pios estabelecimentos, porque lê-se nos documentos de Arouca, onde tanto a rainha D. Mafalda e a sua santa neta Mafalda ainda se veneram, que estas albergarias já eram velhas, quando a santa estava no princípio da vida.
O lugar das Caldas defronte de Moledo deriva o seu nome das águas sulfúricas que ai nascem perto do Douro e até no próprio leito do rio. Há mui poucos anos que apenas existiam aqui umas casinhas muito ordinárias e poucas ou nehumas comodidades para os enfermos que frequentavam as águas, porém agora há uma boa hospedaria, bons quarteis para famílias, lojas de peso bem sortidas, e como a posição é bela, o ar saudável, e a estrada magnifica, a afluência de gente irá cada vez em progresso aumento.
Cedadelhe, Oliveira e Fontelas, nada têm de extraordinário, sendo simplesmente povos pequenos cercados de vinhas, porém vale bem a pena que o viajante suba até aos cumes das serras de S. Silvestre e S. Gonçalo de Mourinho por ser da primeira onde ele poderá gozar belíssimas vistas das margens graníticas do rio, e da segunda de onde se pode descobrir todo o país vinhateiro de baixo Corgo.
De S. Silvestre vê-se toda a natureza em toda a sua majestade: em quanto que de S. Gonçalo de Mourinho, não há um palmo de terra que não fosse levantada três vezes por ano pela enxada do cultivador.
Salgueiral e Jugueiros estão situados num belíssimo vale onde em outro tempo não se cultivava senão trigo e frutas por ser a terra muito pesada demais para vinhas, mas depois da lei de 1843 cobriu-se de videiras.
Régua, como as Caldas, vai cada vez em aumento, especialmente na margem do rio onde se têm construído muitos e belos armazéns para o depósito de vinho. A principal casa é a da Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro – na qual se fazem as reuniões das provas. Antigamente era muito curioso estar no Peso ou na Régua na época da feira, quando os lavradores vinham vender e os negociantes comprar os vinhos novos. Então como sempre acontece debaixo de monopólios, a companhia tinha grandes privilégios e entre eles o de comprar todo o vinho que quisesse, pelo preço da taxa por ela mesmo imposta – enquanto que o comércio em competência uns com os outros, muitas vezes tinham de pagar o dobro destes preços sendo o excesso da referida taxa chamado, maioria, pagável em dinheiro de metal sonante (com exclusão de papel moeda) à factura do escrito.
Também as leis do marquês do Pombal estavam em pleno rigor – não podendo haver introdução de vinhos de fora da demarcação, nem tão pouco o sabugueiro podia existir no distrito nem o seu fruto ser usado, debaixo de grandes penas. Neste último ponto a companhia prestou muito serviço aos principais consumidores do vinho do Douro, e como tinha o poder de apartar arbitrariamente os vinhos que quisesse para embarque, limitava-se o comércio entre poucas mãos. Depois teve o subsídio dos 150 contos e a produção aumentou espantosamente para melhor poder suprir a compra das 20 mil pipas que ela era obrigada a fazer anualmente. Nestes últimos anos, ainda que a companhia não fosse abolida, a lei do subsídio forçosamente teria de o ser pela razão da escassez que ao princípio resultou de estações desfavoráveis e agora ultimamente pelos efeitos da moléstia que tão terrivelmente flagela todos os países vinhateiros.
A companhia deixou pois de ter privilégios e autoridade, porém no seu lugar se estabeleceu uma comissão com quase idênticos poderes da extinta Companhia para regulamento das provas e separação dos vinhos, facilitando porém o uso da baga na sua composição, em razão da continuada exigência de imensa cor, dos vinhos intitulados de primeira qualidade para o embarque.
Como o meu fim, por ora, é só descrever as margens do Douro, reservar-me-ei para uma próxima ocasião para descrever o interessante país que se estende para o interior, e que é tão rico por natureza, mas cuja produção não é permitido desenvolver-se em razão das curtas e interessadas vistas das sucessivas administrações que Portugal tem tido e parece continuará a ter.
Há muito boas casas tanto na Régua como no Peso, e entre elas há fortunas colossais.
Todos os habitantes têm mais ou menos vinhas, e as pessoas principais são comissários de várias casas de comércio do Porto.
Graças ao digno administrador do correio central do Porto, e do seu delegado no Peso da Régua, há correio todos os dias entre o Porto, Vila Real, Lamego e Régua.
Na margem esquerda, desde Vilar até Cambres apenas há o sítio de Barô digno de especial menção, em razão do seu antigo convento situado no alto da montanha de onde se descobrem vistas tão vastas como as de S. Silvestre e com a vantagem de ser num país cultivado e abundantíssimo em vinho e frutas.
Acima da Régua, o rio Corgo e defronte o rio Barosa, formam os limites do país vinhateiro conhecido pelo distintivo de Baixo Corgo, cujos vinhos são mais palhetes que os do distrito contíguo.
As margens do Corgo não deixam de ser pitorescas, mas para vistas magnificas e sublimes, e que talvez seria difícil encontrar iguais em parte alguma do mundo, é forçoso que todo o viajante de bom gosto dê o seu passeio a cavalo pelos sítios da Valdigem, Sande e Serra de Balsemão até á antiga cidade de Lamego, voltando pela estrada real por Portelo, outra vez para o Douro.
Quanto ao estado das vinhas entre Mesão Frio e Régua pode dizer-se que a moléstia tem estragado as uvas todas, enquanto que apesar das asserções feitas por pessoas interessadas, a moléstia não fez grandes estragos na zona de Penaguião e se não fossem os grandes e continuados calores destes últimos dias que secaram muitas uvas a novidade de 1854, apesar de escassíssima em alguns sítios, noutros teria produzido dobrada quantidade do vinho da colheita do ano passado conforme escrevi neste jornal na minha carta de Pinhão.
Na estrada da foz do Barosa até à quinta de Vale de Lage, propriedade do nobre visconde de Várzea, notei com muito interesse que em algumas vinhas deste fidalgo a moléstia tinha feito grandes estragos, porem que no meio delas havia uma única vinha em que as videiras não tinha sinal algum da moléstia, e as uvas eram abundantes, bem criadas e perfeitas.
Tão extraordinária era esta vista que por três vezes tentei copia-la fotograficamente, porém, em razão do sol ardentíssimo todas as minhas tentativas foram malogradas.
Na Régua ainda se registam todos os vinhos produzidos no distrito, concedendo guias para a sua condução para baixo – guias que têm de ser conferidas e rubricadas no cais do Bernardo, Perto do sítio do Piar.

Sou de VV.
J.J. Forrester


Observações:

- O rio Corgo tem foz na margem direita do rio Douro.
- O rio Barosa agora Varosa, tem foz na margem esquerda do Douro em frente ao Peso da Régua.
- Cambres é a seguir a Samodães.


Caldas de Moledo – Ed. Pedro A. Leitão

Miradouro de S. Silvestre – Ed. Pedro A. Leitão


Casa da Companhia das Vinhas do Alto Douro na Régua, agora um museu – Ed. Pedro A. Leitão

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

(Continuação 8)

Quinta Carta do Barão de Forrester - 25 de Setembro


Desde Porto Manso até o Ponto do Piar, distante cerca de três léguas, o rio actual passa entre rochedos e altas penedias.
Na margem direita há os insignificantes povos de Lugar das Vendas, Mirão, Porto do Rei e a Vila de Barqueiros; na margem oposta apenas há o povo das Caldas de Aregos e algumas casas defronte de Mirão, Porto de Rei &c.
Vê-se a cultura em alguns intervalos, porém com imenso custo em razão da natureza do terreno.
Depois da demolição das azenhas, tem-se estabelecido moinhos em barcas sobre alguns pontos do rio, mas apesar dos ventos soprarem constantemente, não há moinho de vento algum desde S. João da Foz até à raia!
Logo acima do Portozelo, por exemplo no ribeiro de Cabrão, sítio lindíssimo e que produz azeite e algum vinho, há moinhos que, apesar da escassez geral das águas, são decerto, os melhores do rio; mas assim mesmo os habitantes precisam esperar alguns dias para lhes tocar a vez para moer o seu pão, em razão da grande concorrência dos povos vizinhos, que vêm aqui moer o seu pão trigo, bem como o milho e centeio enviado da cidade invicta de propósito para este fim.
Ora neste século de progresso, depois de recebidos no Porto os cereais da raia, com, pelo menos, 30 léguas de carretos e frete, tem estes de tornar a voltar dez léguas e três quartos de caminho para serem moídos e depois de novo conduzidos para o Porto!!!
Estávamos no cais da Rapinha, quando chegaram dous barcos, um dos quais carregado de sacas de milho e trigo vindas do Porto e conduzidas por um homem, sua mulher e filha. Trouxeram apenas três carros e meio em 20 sacas. O frete da condução do grão para cima, e para baixo, de farinha, apenas importava em sete mil reis, e por esta diminuta quantia, a família havia de gastar pelo menos 15 dias, pagando por sua conta as alagens e a algum homem para os ajudar a subir os pontos!
O segundo barco era de passagem de uma para a outra margem do rio, e logo que chegou a terra debaixo de uma salva de trovões e relâmpagos, saltou na praia um sujeito vestido de chambre de riscado e chapéu de palha, com um pau argolado, o qual se dirigiu a mim exclamando: “dê cá esses ossos!” e conheci que quem me abraçava com tanta amizade, não era outro que o distinguíssimo Ministro de Estado honorário Dias de Oliveira. Este recto juiz tendo aqui as suas terras, veio há pouco ver as obras que trás, e tendo visto do alto da sua quinta passar a minha barquinha, apareceu na forma do costume sem aparato algum nem bazófia, a oferecer-me a sua hospitalidade.
Da mesma maneira que os meus patrícios da Escócia aparecem por toda a parte, também se encontram nacionais da Galiza. Na Rapinha, neste sítio tão remoto e pouco povoado, logo que chegaram os dous barcos indicados, apareceu um galego para conduzir os sacos para o moinho, e com efeito ele só os levou. Como cada saco trazia 7 alqueires e ele tinha de o levar até ao moinho, distante uns 180 passos, fez pelo menos de ida e volta, uma légua de jornada na condução dos 20 sacos, e por este trabalho recebeu 200 réis.
As perspectivas são belíssimas nestas três léguas até o Piar; mas a cada passo há uma galeira que torna a navegação perigosíssima em toda a marca do rio. O leito está descoberto e acham-se à vista todos os obstáculos à livre navegação: as enormes pedras que em certa marca do rio estão cobertas, vêem-se-lhes agora as raízes cercadas de erva infernal e de bichinhos, como lagartos e pequenas cobras que eu nunca imaginava encontrar em semelhantes sítios.
Na ínsua da Bula é onde os rochedos apresentam uma configuração mais curiosa e pitoresca, por causa da força das correntes das águas, e aqui o rio agora (25 de Setembro) junto à lage da Bula apenas tem 40 palmos de largura e 25 a 30 de profundidade, tendo os rochedos em cada margem pelo menos 40 palmos fora de água.
Tem-se alteado e reformado o paredão da Bula – é uma bela obra esta, tão bem executada como concebida.
Não vi preparativo algum para o melhoramento do ponto de Louvagem – pois as pedras bem descobertas estão – mostrando claramente quão fácil seria a sua demolição. Bastante gente anda trabalhando no Cadão, a alargar a pequena estrada que existe na margem esquerda para a alagem dos barcos. Aqui vêem-se muitos rapazes e raparigas levando pedras e entulho em pequenas canastras à cabeça (!) e algumas pedras em terra se andam quebrando, porém nas pedras do ponto mesmo, não se tem bulido. É pois de recear que se deixe passar esta ocasião para talvez nunca mais voltar, em que o curso do rio podia tão facilmente ser temporariamente conduzido em outra direcção, enquanto se fizessem as obras necessárias, no sítio mesmo daquele ponto. No buraco do Cadão, existe uma pedra sobre a qual batem todos os barcos nesta marca do rio; - com meia dúzia de arráteis de pólvora, dentro de dous dias, podia desaparecer este obstáculo, porque agora apenas trás meio palmo de água por cima.
Igualmente na Figueira Velha não vejo andar obra alguma quando também em poucos dias e diminuta despesa, este ponto poderia melhorar-se.
Canedo em que em outros tempo tão grossas somas se gastaram – ainda nesta marca do rio restam uma pequena obra a fazer-se, que dentro de 8 dias em se podia efectuar e com mui pouca despesa e que será quase impossível logo que venham as águas.
Na Ripança andam obras para facilitar a descida dos barcos carregados quando a marca de trinta anda a descobrir e juntamente para a subida dos barcos. Esta obra não deixará de ser útil até onde ela chegar.
No Piar sentimos verdadeiro gosto por ver que finalmente se tinha tapado um dos canais neste ponto com uns poucos de sacos cheios de areia, de sorte que com a maior facilidade se podiam limpar as pedras soltas e entulho de calhau que ai se achavam depositados. Este ponto é um dos mais interessantes em todo o Douro, 1º por ser a chave das montanhas do distrito vinhateiro, e 2º por ser o único sítio em todo o rio onde se tentou fazer uma ponte de pedra. É evidente que esta ponte nunca se concluiu, ainda que, na margem esquerda existe a maior parte de uma coluna de pedra de cantaria, não há indício algum até de ter havido princípio da estrada. No Calhau da margem direita, havia há anos uma das colunas mui bem conservada e também se viam os alicerces das outras duas, porém agora estes estão cobertos de areia e a torre está quase desfeita.

Sou de VV.
J.J. Forrester

Observações:

- Vila de Barqueiros é após Santa Marinha do Zêzere e Frende.



Vista obtida a partir da estação ferroviária de Barqueiros – Fonte: Google maps


Marco Pombalino da Quinta de Piar, Barqueiros, Mesão Frio – Ed. “mesaofrio.com.pt”

Na foto acima na Quinta de Piar um dos marcos classificados como monumentos de interesse público em 1946, de demarcação da zona de Vinhos Generosos do Douro.
Aquele marco foi colocado nos terrenos de Lourenço de Azevedo, que solicitou a inclusão da sua quinta na demarcação em 1759.
Tendo sido anos mais tarde, usado com um outro na construção de um armazém, foi posteriormente recuperado e em 1941, recolocado na vinha abaixo da casa por iniciativa do então proprietário, o Eng. Luís Guedes de Paiva.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

(Continuação 7)

Quarta Carta  do Barão de Forrester  

O Convento de Ancede situado num belo vale, ainda que em posição elevada, a um quarto de légua de Porto Manso, é digno de atenção: mas o seu estado actual de abandono e a ausência dos frades, contrastam de uma maneira singular com o seu aspecto ordinário em outros tempos. O lugar de Porto Manso muito sente a extinção destas corporações religiosas, pelas esmolas que os frades distribuíam diariamente aos pobres – e quanto ao terem acabado os dízimos, dizem os povos que este benefício resultou só a favor dos proprietários. Conheço um indivíduo que ganhou com a mudança e é o meu compadra e arrais, António de Oliveira Dias (mestre o mais hábil no Douro) que tem aqui seu casal, e que costuma nas ocasiões da minha chegada empregar os serviços do ex-cozinheiro do dito extinto convento de Ancede. Em mui poucos países tenho assistido a jantares mais bem servidos e abundantes do que o foi um, que o meu compadre aqui me deu. Todas as cobertas foram servidas com delicadeza e asseio. Tivemos excelente caldo, vaca cozida e arroz – galinhas cozidas com presunto e salsichões – enorme peru assado com o seu picado à Ancede – dois gansos formidáveis – alguns frangos – uma perna de vitela – presunto de Melgaço feito em fiambre – boa cernelha de vaca assada – três coelhos bravos ensopados – dois excelentes guisados – um leitão muito tostadinho – e meia dúzia de perdizes mortas com toda a cerimónia da antiga lei, em 1 de Setembro. Depois seguiram pudins, pão-de-ló (ou cavaca fina), biscoutos, morcelas, melancia, melão, laranjas, limas, maças, pêras, pêssegos e doce de calda; - porém nem um só cacho de uvas, nem tão pouco uma garrafa de vinho!
As uvas pela maior parte se perderam e tal será a escassez de vinho nestes sítios, que o velho que em outros anos se comprava a seis mil reis e moeda de ouro, já se está vendendo a 30$ooo réis.
Fiz os meus cumprimentos ao meu compadre pela sua prodiga hospitalidade e ele respondeu-me que muito estimava poder mostrar-me que nos vinte anos que me tinha servido, não somente tinha ganho para o sustento e educação da sua família mas também poupado bastante dos dinheiros que eu lhe tinha dado a ganhar, não somente para me fazer este pequeno oferecimento mas também para que tivéssemos um petisco para comermos na viagem que íamos seguindo.
De Porto Manso fiz uma digressão até à antiquíssima vila de Canaveses, onde no Marco achei as videiras com a mais bela aparência e cheias de magnificas uvas – facto este o mais notável, quando nos arredores todas as uvas estão perdidas pela moléstia.
O Tâmega em Canaveses, ainda trás bastante água e tem uns 400 a 500 palmos de largo. O sítio é tão belo, que apesar da falta de comodidades, achei bastante em que me entreter durante dois dias inteiros.
Em todo o concelho de Baião, o pão está muito caro em razão do calor que tem perdido a maior parte do que estava na terra e que não servirá senão para o gado.
A ribeira de Porto Manso, outrora mui produtiva e abundante em água, este ano produz menos que metade do usual e se as chuvas continuarem a faltar, as consequências poderão ser mui fatais.
O estado do rio Douro entre o ribeiro de Pala e o rio Bestança é digno de particular observação. O leito está todo descoberto e o rio é um mero canal que apenas tem 60 palmos de largura e cujo curso é entre enormes rochedos de granito de 25 a 35 palmos de altura. Estes rochedos estendem-se sobre um espaço de 800 palmos de largura em cada uma das margens, até á casa do açougue em Porto Manso e a casa do Souto no cais do rio Bestança – e ambos estes pontos estão na altura de 60 a 70 palmos da borda do rio. Mesmo quando estes rochedos se acham cobertos, é uma temeridade navegar no rio com barcos carregados – porém no Inverno acontece muitas vezes que as enchentes do rio trazem dentro do curto espaço de três dias tal quantidade de água, que o rio sobe até às duas casas indicadas, tendo pois 1600 palmos em lugar de 60 de largura, e 90 de altura.
O motivo do rio levantar tanto neste sítio é bem óbvio: - nos pontos de Escarnidas e Fiéis de Deus, o aperto das margens e a altura dos rochedos impede que as águas desemboquem, e por isso espalham-se pelo cais de Porto Manso, da mesma maneira que em 1780 antes de se demolir o cachão de S. João da Baleira, as águas não achando expediente cobriram toda a Ribeira da Vilariça.
Logo acima das pedras da Morteira, que são os mais altos rochedos no cais de S. Paio, defronte do Porto Antigo, existia no meio do rio a pedra nativa chamada da Seixeira, que tinha 20 palmos de altura sobre a actual margem do rio – mas não era prejudicial à navegação – antes era uma rica propriedade de um particular, que dela tirava bom rendimento pela pescaria que até 1828 rendeu seiscentos e tantos sáveis num dia. Apesar do dispêndio, inutilmente feito a meu ver, com a demolição deste rochedo – ele ainda tem seis palmos de altura fora de água.
Se antes de empreender estas obras, se tivessem aconselhado com os homens práticos, haviam de ter-se informado que o princípio da resistência da água da Seixeira, nascia da Fisga para baixo – águas que não levam os barcos para a Seixeira, mas sim sobre o rochedo Gonçalo Velho, no cais do Souto do Rio, onde iam e ainda vão bater: e em prova desta nossa asserção a corrente que principia na Fisga ainda continua com a mesma força na marca do rio em que sempre é prejudicial.
A pólvora não está muito cara – o ferro não falta – a gente da terra tem sempre vontade de trabalhar, venha a ordem para a demolição somente de metade do assustador Gonçalo Velho, e em poucos dias e sem que se faça grande despesa, ele deixará de existir.

Sou, de VV. &c.   
J.J. Forrester


Convento de Ancede – Ed. Pedro A. Leitão

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

(Continuação 6)

Terceira Carta do Barão de Forrester - 20 de Setembro
            
A digressão de hoje foi de três léguas desde Fontelas até Porto Manso.
O vento foi favorável de tarde, e poderíamos ter feito maior jornada se não nos tivessem extasiado as belíssimas vistas por toda a extensão do rio, as quais se fossem conhecidas pelos artistas dos países do norte, chamariam metade do mundo viajante para admirar estas belezas, infelizmente ignoradas no seu próprio país. É verdade que são em muitos sítios os enormes rochedos que apresentam os primeiros planos aos quadros que desejáramos ver pintados; e como o governo de S.M.F. decretou que daqui em diante uma certa soma será aplicada para demolir estes obstáculos para a livre navegação do Douro, - se os viajantes se não apressarem a cá vir por estes primeiros meses, poderá ser que, pelo ano que vem [1855], a marcha da civilização destrua os principais objectos de gosto artístico que a mim, que os tenho admirado mais do que outros quaisquer que tenho visto, ainda me chamam como em peregrinação três vezes por ano.
Na marca actual do rio, que é talvez a mais baixa de que os práticos se lembram, até Porto Manso não há pontos nem galeiras ainda que nos pontos da Retorta, do Colo, Tojal e Escarnida não deixam de fazer sua corrente que bastante embaraço causa à navegação quando não há vento, de meia vela a favor, porque em caso contrário seria indispensável empregar gente ou bois para alar  os barcos nestes pontos. No ponto da Retorta, logo acima do Convento d’Alpendorada, havia um rochedo enorme que por mais de vinte anos era muito nosso conhecido, e tão alto era ele que os boieiros para cambarem o cabo por cima, precisavam de uma escada de 14 degraus: chamava-se o Penedo do Corvo.
Ultimamente, no ano passado foi em parte demolido; porém em 1853 o Verão foi sempre chuvoso e conservou-se muita água no rio – agora em 1854 o litoral está à vista – Que bela ocasião para os engenheiros do Governo completarem a sua obra, desfazendo mais uns cinco palmos que ainda tem o calhau, para assim facilitar a passagem dos barcos com setenta pipas com a marca do Pinhão, sem serem obrigados a desviarem-se dos restos do penedo tomando outro rumo, pelo qual correm o risco de quebrarem-se na pedra da Retorta!
Nos pontos de Valvela e Couces de Vimeiro, observei umas pedras quebradas por cima, com a evidente tenção de formar em cada um dos sítios um canal para passarem os barcos em certa marca do rio, que é das águas do Tua; porém, ficando estas obras como estão, receio que a navegação não tire muita vantagem delas.
Os povos, que hoje passamos, foram, na margem direita:
Vimeiro terra dos arrais de matriz e trasfegueiros – tem muito boas casinhas – reina grande actividade no cais – toda a gente parece ter que fazer e vivem muito bem. Este povo forma um grande contraste com todos os mais que temos visto do Porto para cá. Antigamente a Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro tinha aqui o seu comissário e grandes armazéns; e nenhum arrais passava daquele sítio para baixo sem receber as suas ordens.
Lavadouro também é terra dos arrais, mas é um povo mui pequeno.
Pala igualmente é terra de arrais e lavradores – todos abastados, que vivem tão bem como os do Vimeiro.
Porto Manso é um povo de bastante importância e onde se encontram os arrais mais relacionados com o grande comércio de vinhos do Porto.
Há ali boas casas, boa e rica gente, e o sítio é delicioso e mui produtivo.
Na margem esquerda apenas há os pequenos povos de Souto do Rio e Porto Antigo, sítios mui pitorescos, e onde se carrega a maior parte das madeiras de castanho que vão para a cidade do Porto. Pode-se calcular, sem exageração, em 20 mil os paus, pés e pontas de castanheiros, que são carregados neste cais todos os anos.


Sou de VV. & c.
J. J. Forrester

Observações:

- Porto Manso fica em frente à foz do rio Bestança, já depois da Pala.
- Souto do Rio fica praticamente na foz do rio Bestança.

Porto Manso – Ed. Pedro A. Leitão

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

(Continuação 5)

Segunda Carta  do Barão de Forrester  -  20 de Setembro


Logo ao amanhecer continuamos a nossa viagem – mas depois de grande trabalho da parte da tripulação que andou na água a levantar o barco para poder passar no seco da Varjiela, e custou-nos a chegar a Melres, levando-nos três horas a andar esta pequena distância de meia légua!
Defronte deste povo almoçamos, e durante este descanço podemos notar que o sítio abunda em férteis campos, lenhas, cortiça, laranja e vinho, com tudo isso parece que os habitantes não gozam da maior prosperidade. As habitações são miseráveis e não há entre elas uma única casa que se possa supor pertencer a lavrador abastado.
Esta circunstância é mais notável em razão da benignidade do clima que faz que as terras produzam quase espontâneamente, e dos habitantes não precisarem fazer grande despesa com o seu sustento e vestuário.
Os homens apenas trazem calças, colete e camisa – as mulheres contentam-se com uma saia, camisa e colete, e as crianças – rapazes e raparigas, até à idade de 8 ou 9 anos, andam só com camisinha, aqueles que a tem.
Entre o Carvoeiro e Melres passamos na margem esquerda do rio o povo de Pé da Moura (Lomba), sendo este o extremo ponto onde chega a maré e de onde a maior força da carqueja é remetida ao Porto. É curioso notar a direcção que nestes sítios toma o rio, porque principando em Lombeiro de Atães e acabando em Pédorido e Rio Mau, um quarto de légua adiante de Melres, descreve o perfil de uma cara de homem.
Ao meio dia o calor era tanto, marcando o termómetro 123 graus, e a atmosfera tão abafada, que não tivemos remédio senão dar à nossa tripulação três horas de descanço no areio d’ortos, ao pé do ribeiro da Raiva; mas depois o vento favoreceu-nos e podemos chegar à noitinha a Fontelas.
As vistas de ambas as margens são belíssimas, porém são poucos os povos e o seu estado em nada difere daquele que acabamos de descrever.
Há bastantes oliveiras e sobreiros desde Pé Dorido até defronte d’Entre –ambos-os-rios, onde o Tâmega desemboca no Douro. A perspectiva pelo vale do Tâmega é mui bela, quanto à natureza; porém é lastimoso notar-se que nem pelo rio nem por terra tenha a arte ajudado a aumentar os meios de comunicação com o interior do país, nem mesmo com Canaveses e muito menos com a importante vila de Amarante por onde o rio passa.
Em Entre-os-Rios tem aparecido bastantes vestígios dos romanos, e tanto neste povo como em Canaveses há caldas e águas férreas que deviam talvez ser de bastante estimação se houvesse comodidade que chamasse  a gente a frequentá-las. Neste sitio havia registo, pela antiga Companhia, de todos os barcos que iam para o Porto.
Castelo de Paiva é uma terra insignificante, mas de um aspecto muito romântico, sendo a origem do seu nome a ilha de rochedos pitorescos no meio do rio em frente da povoação. O rio Paiva é abundante em peixes, especialmente trutas.
Nos tempos feudais quando os senhores recebiam os foros dos caseiros e tinham direito de pesca em certas estações do ano, além das galinhas que lhes foram dadas para merenda, era forçoso até fornecer-lhes o trovisco. Entre os povos mais afamados naqueles tempos, o Castelo de Paiva, não era o menos importante pelas suas pescarias de trovisco (modo de pescar com essa planta venenosa), conforme o que coligimos de vários escritores, e apesar da pesca de trovisco ser, por lei, de há muito proibida, neste povo de Castelo de Paiva ainda continuam a pagar-se muitos foros em galinhas, aplicadas em outras áreas para as merendas da pesca de trovisco. Nos arredores de Paiva, fabrica-se grande quantidade de carvão de choça que se vende na cidade.
Tenho deplorado o estado de miséria em que parecem achar-se todos os povos que passamos entre o Porto e este sítio – agora acrescentarei que nos intervalos que medeia entre um povo e outro, não se encontra nem gente, nem gado, nem rebanhos, parecendo um país não habitado: ao mesmo tempo que cada passo aparecem deliciosos sítios a convidar o homem de gosto a ir para ali estabelecer o seu domicílio.


 Sou de VV. & c.
J. J. Forrester

Observações:

- Pedorido é uma antiga freguesia do concelho de Castelo de Paiva, onde desagua o rio Arda, afluente da margem esquerda do rio Douro. 
- Fontelas fica em frente a Sebolido.
- A temperatura de 123 graus refere-se, com certeza, à escala de fahrenheit, ou seja a cerca de 50º celsius.


Choupal do Pedorido – Ed. “cm-castelo-paiva”

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

(Continuação 4)

Cartas do Barão de Forrester

As cartas que se seguem foram publicadas em 1854 no jornal “O Commercio”, futuro "O Comércio do Porto", que tinha sido fundado em Junho daquele ano, narrando uma viagem pelo rio Douro do Barão de Forrester, tendo sido extraídas do blogue “aportanobre.blogspot.pt.”
No fim de cada carta estão alguns comentários nossos.


Primeira Carta do Barão de Forrester - 11  de Setembro de 1854

Quem quer seguir viagem do Porto pelo rio Douro acima, deve lembrar-se que até Pé de Moura quase nunca no Verão os barcos carregados poderão passar sem maré, e ainda que a nossa barquinha não levava o que se pudesse chamar carga, contudo os arranjos de camas, baús e mais utensílios próprios ou necessários para uma longa viagem, bem como a tolda, os armários, beliches, mantimentos, etc. pesavam, pelo menos, metade da lotação do barco que era de nove pipas – escolhemos por conseguinte a hora da maré, que deitava das 3 para as 4 horas da tarde para a nossa saída de hoje. 
Também ainda que não somos astrólogos nem sabemos calcular bem as mudanças do tempo, temos tal ou qual fé nas diferentes fases da Lua – e como há 15 dias a esta parte sempre tivemos vento Leste fortíssimo, entendemos que este quarto de Lua crescente nos poderia favorecer, e com efeito assim aconteceu porque não somente podemos aproveitar a maré mas tivemos vento pela popa. 
Chegamos às 8 horas e meia a Carvoeiro, 3 léguas e meia da cidade, andando à razão de 3 quartos de légua por hora.
O leito do rio Douro até este ponto é uma pouca de areia – o canal para a navegação é estreitíssimo e actualmente na maré baixa apenas trás de 2 a 3 palmos de água. Estas areias depositam-se todos os anos com as enchentes do rio, e as marés de Verão concorrem para a sua conservação. Assim tem acontecido desde que os Fenícios se estabeleceram em Portugal – e pelo que se vê, a arte, a ciência, e o mecanismo não puderam remediar o mal! – ao menos pelo que vemos, não parece ter havido tentativa alguma para este fim. 
Pela margem esquerda notamos as pequenas povoações de Quebrantões – Oliveira – Espinhaça de Avintes – Arnelas – Crestuma e Carvoeiro, e pelo lado direito Campanhã, Valbom, Gramido, Atães, Sousa, Gibreiro, Esposar, Lixa e Pombal. 
Quebrantões é notável por ser o sítio onde na guerra peninsular, os exércitos luso-britânicos passaram, quando os franceses evacuaram o Porto. Agora é neste sítio a barreira por onde nenhum barco, por pequeno que seja, pode passar sem ser examinado. 
Defronte são as ruinas do grande Seminário que foi arruinado durante o cerco do Porto e logo ao pé, também se veem algumas paredes do palácio desmantelado do Bispo: tanto as belas árvores desta quinta como as do Convento da Serra foram cortadas em 1833. 
Oliveira, sempre tem sido célebre pelo seu antigo convento e por ser a sua cerca um recreio para os habitantes do Porto. 
Avintes, é a terra das padeiras que abastecem a cidade do Porto com excelente pão. 
Arnelas, notável por suas madeiras e lenha e pela sua feira de S. Miguel, em que as nozes abundam. 
Crestuma, pela abundância de águas e lenhas suficientes para fazer trabalhar imensas fábricas – porém onde por ora ainda não há nenhuma. Aqui no tempo da antiga Companhia havia o registo de todos os barcos com vinho que iam para o Porto. 
Carvoeiro, pela quantidade de lenhas e madeiras que manda para o Porto. 
Campanhã, pelas fábricas de curtume e pelo isolado palácio arruinado do Freixo, que tem as armas dos Lencastres sobre a porta. 
Valbom, por ser a terra dos pescadores, que nas suas belíssimas lanchas vão ao mar. 
Gramido, sítio onde o Sr. D. Miguel em 1833 estabeleceu uma ponte de barcos e onde em 1846 se fez a convenção entre as forças luso-espanholas e a Junta do Porto. 
Os povos desde Atães até Pombal sustentam-se do produto das suas terras mandando apenas de vez em quando algumas melancias, melões e hortaliças para o Porto. 
É para notar que em toda esta extensão do rio, em quanto que os homens se ocupam na agricultura, as mulheres conduzem os seus barcos com géneros ou passageiros para o Porto. Estas mulheres são muito hábeis na sua ocupação; a maneira como elas cantam suas modinhas, que geralmente são originais, faz crer com especialidade ao estrangeiro, que são as criaturas mais felizes do mundo e que ignoram inteiramente o que é a fome e a miséria. 
São muitos os dias que nem dois patacos ganham – porém continuam a cantar e parecem contentíssimas com a sua sorte. 
Chegados ao nosso ancoradouro, tratamos de fazer os arranjos necessários para ai passarmos a noite. 

Sou de VV. & c. 
J. J. Forrester 




Observações:

-Pé de Moura fica na actual freguesia de Lomba pertencente a Gondomar, mas na margem esquerda do rio Douro.
-Por Decreto de 2 de Maio de 1855 foi estabelecida a "légua métrica", equivalente a 5 000 metros.
- Carvoeiro situa-se entre Lever e Lomba