terça-feira, 24 de abril de 2018

(Continuação 18)


Visita da rainha D. Maria II ao Porto em 1852

Em 1852 D. Maria II encetaria uma visita ao Norte do País começada em 15 de Abril em Lisboa que, em 8 de Maio estava por Viana do Castelo e, que, por decisão da soberana, era esta cidade designada do Castelo, desde 1848.
Seguir-se-iam na visita, Braga, Guimarães e Barcelos. A vila do Gerês seria retirada do itinerário devido à má qualidade das estradas.
A passagem pela cidade do Porto deu-se entre 19 e 22 de Maio de 1852.
A rainha fazia-se acompanhar do rei consorte, D. Fernando II e dos príncipes que seriam mais tarde reis, D. Pedro e D. Luís.
O Presidente da Câmara do Porto era à data, José António de Sousa Basto.
A entrada na cidade do Porto foi antecedida por uma visita real ao Concelho de Valongo.

“O Diário do Governo, do dia 24 de maio de 1852, na primeira página, publica uma carta do Governador Civil do Porto, Visconde de Podentes, dirigida ao Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Rodrigo da Fonseca Magalhães, relativamente à visita que a Comitiva Real (Rainha D. Maria II, seu marido com o título de Rei, D. Fernando II, e os príncipes, que, mais tarde, viriam a ser reis de Portugal, D. Pedro e D. Luís) fez ao Norte do Reino, e onde se faz referência ao almoço que foi oferecido a Suas Majestades, nesta cidade, no lugar da Travagem, por parte da Câmara de Valongo em forma de gratidão pela criação do novo concelho de Valongo.”
“avozdeermesinde.com”

A seguir se dá conta de teor da carta do Governador Civil do Porto a propósito da passagem real por Valongo.

«Governo Civil do Districto do Porto / Ill.mo e Ex.mo Sr.
Tenho a honra de participar a V. Ex.ª, que tendo Suas Magestades e Altezas saído hoje de Santo Thyrso ás oito horas da manhã, e tendo-se dignado acceitar um bem servido almoço que tinha feito preparar, e lhes ofereceu na ponte da Travage a Camara de Vallango (sic), a sua entrada se verificou nesta cidade pelas duas horas da tarde, dirigindo-se Suas Magestades á Real capella de Nossa Senhora da Lapa, aonde assistiram a um solemne e pomposo Te-Deum, preparado e dirigido pela irmandade da mesma capella, no qual celebrou S. Ex.ª o Bispo da diocese. (...) / Deos guarde a V. Ex.ª / Porto 18 de Maio de 1852, ás quatro horas da tarde. = Ill.mo e Ex.mo Sr. Rodrigo da Fonseca Magalhães, Ministro e Secretario de Estado dos negocios do Reino. = Governador civil, Visconde de Podentes».

Durante a sua estadia no Porto a rainha ficou hospedada no Palácio do Bolhão, do 1º Barão e 1º Conde do Bolhão, este último título já outorgado pelo Rei Regente D. Fernando II, pois, tendo morrido a rainha em 1853, o príncipe D. Pedro ainda era menor de idade. Por certo a distinção ao anfitrião e Barão do Bolhão, de seu nome, António Alves de Sousa Guimarães, foi um reconhecimento pela hospedagem.
Sobre esta visita ao Porto, fala-nos também um texto inserido n’ O Tripeiro, Série 5, Ano 9, nº 12 com o título de  “As consequências de um dia de chu­va”, na qual é relatada uma festa que se realizou na Quinta das Águas Férreas.



“Em 1852, em honra da visita ao Porto da Rainha D. Maria II e de el-rei D. Fernando, a alta sociedade da cidade decide organizar uma festa elegante e original ao ar livre, sendo escolhido para tal efeito a Quinta das Águas Férreas, considerada na altura uma das mais belas do Porto. De modo a preparar tudo para a festa, terraplanou-se os terrenos e cobriu-se de saibro vermelho um campo para nele se improvisar uma esplanada. Foram contratados carpinteiros para construir barracas para os fornos e para as cozinhas ao longo dos muros de Cedofeita. Levan­taram-se vários tablados e construiu-se um imenso pavilhão quadrado, coberto com um toldo, para dançar e proteger do sol, sendo as mesas para o almoço colocadas debaixo das laranjeiras. Infelizmente a festa não terminou nas melhores condições, devido à intensa chuva que nes­se dia se fez sentir”. 


A Academia Politécnica viria também a receber a rainha D. Maria II, durante a qual, não perdeu a oportunidade, o professor de Matemática Joaquim Torcato Álvares Ribeiro, de lhe recordar a falta que faziam os laboratórios práticos e os prejuízos causados pela paragem das obras no edifico, decorrente da apropriação pelo Tesouro Nacional da dotação feita por D. João VI.
Na preparação da visita real à Academia tinha sido pela 1ª vez decidido pelo Conselho Académico, os lentes apresentarem-se de “casacas, coletes e calças pretas, Sapatos e meias de seda preta e lenço branco ao pescoço”.
Na sequência da visita real foi ainda projectado um obelisco a erigir na Praça de Dom Pedro da autoria de Luís Augusto de Parada e Silva Leitão.



Projecto de obelisco para a Praça D. Pedro - Fonte: “gisaweb.cm-porto.pt”

sexta-feira, 20 de abril de 2018

(Continuação 17)


Quinta da Lavandeira no Poço das Patas

O Poço das Patas era, em tempos que já lá vão, a área hoje ocupada pelo Campo de 24 de Agosto e a toda a zona envolvente e vizinha de três grandes quintas: a dos Cirnes; a do Prado, propriedade do Bispo, onde está o cemitério do Prado do Repouso e a da Fraga, que se estendia pelas Fontainhas.
Era, uma zona alagadiça, cruzada pelas águas de várias nascentes, de riachos e ribeiras. Um desses cursos de água tomou o nome de ribeira de Mijavelhas ou ribeira do Poço das Patas e, as suas águas, além de serem aproveitadas para tanques públicos de lavagem de roupa, ainda faziam mover as mós de alguns moinhos, situados nas proximidades da encosta do Monte do Seminário, por onde essas águas se despenhavam até entrarem no rio Douro.
A origem do nome Poço das Patas tem a ver com a existência de patos nessa zona alagadiça.
Um tal de Braz de Abreu Guimarães possuía várias casas e quintais na Rua do Poço das Patas, casas estas, que eram próximas do Poço das Patas e do rio das Lavandeiras.
Entre o Padrão das Almas (Largo do Padrão) e o Poço das Patas (Campo de 24 de Agosto) ficava, então, uma enorme quinta propriedade de Brás de Abreu Guimarães, bem-sucedido negociante portuense, que naquela sua propriedade construiu uma importante fábrica de seda, que no século XVIII deu nome a uma rua, que sucessivamente se chamou: Rua da Seda (1764); Rua da Fábrica da Seda (1766); Rua Direita da Fábrica da Seda (1767); e ainda Rua da Fábrica da Seda de Brás de Abreu, na Rua do Padrão das Almas.

“Este Padrão das Almas era um cruzeiro a que o povo dava o nome de Senhor do Amor Divino e Almas. Estava erguido no pequeno logradouro a que ainda hoje se dá o nome de Largo do Padrão. A cruz, que o arqueólogo Pedro Vitorino classificou como sendo do século XVI, "do tipo arcaizante, cabelo a jeito de corda, mãos espalmadas e pés separados", na opinião, ainda, daquele historiador, foi removida do local onde estava, em 1869, e levada para o Cemitério do Bonfim, onde ainda se encontra e pode ser visitado”.
Com o devido crédito de Germano Silva


O cruzeiro atrás citado, que estava situado no meio do Largo do Padrão das Almas, era a 8ª estação de uma via-sacra que saía da Batalha e se dirigia para o alto do Godim (Monte do Bonfim), pelo Chão dos Olivais (Rua do Bonfim).
A Rua do Poço das Patas que tinha sido Rua de Mijavelhas seguia o actual traçado da Rua Coelho Neto.
Não sabemos como Braz de Abreu Guimarães adquiriu todos aqueles bens ou se os herdou, sabemos que algumas propriedades foram por ele penhoradas, devido a dívidas que os anteriores proprietários tinham com ele.
Por consulta do Arquivo Municipal de Penafiel, sabemos, contudo, que Dona Joana Felizarda Delfina de Abreu Aranha e Araújo, filha de Brás de Abreu Guimarães e de Dona Joana do Nascimento de Araújo Aranha, “viveu na casa de seus pais, na Rua Chã, no Porto, e mais tarde na Quinta da Lavandeira”, junto ao Poço das Patas.
Daquele casamento resultaram ainda mais três rapazes: Bento de Abreu Aranha, João de Abreu Aranha Araújo e Brás de Abreu Aranha e Araújo.
Para o casamento, D. Joana levou um dote avultado e rico, essencialmente em enxoval, móveis e peças de ourivesaria.
As casas da Rua do Poço das Patas, e a quinta cercada de muro, sita ao pé da Fonte das Lavandeiras, no Poço das Patas, foram para o património dos senhores da Aveleda por seu dote.
Aquelas propriedades eram foreiras à Câmara do Porto, bem como mais vinte e uma moradas.
Sabemos que D. Joana em 1765 já se encontrava casada com Manuel de Meireles Guedes de Carvalho, 4º morgado de Aveleda.
Joana deve ter falecido de complicações derivadas do parto de sua única filha, pois esta nasceu a 16 de Fevereiro de 1774 e o inventário feito pelo seu falecimento é de 21 de Março de 1774.
O termo lavandeira significa o mesmo que lavadeira. De facto, o local assim referido, era frequentado por inúmeras lavadeiras que lavavam a roupa nuns tanques adjacentes à chamada Fonte do Poço das Patas, e que deve ser aquela que, em certos textos, é referenciada por Fonte das Lavandeiras.
O local em causa, de Poço das Patas é hoje, como se sabe, o Campo 24 de Agosto e já se chamou, também, em tempos muito mais recuados, Mijavelhas.
O que resta daquela fonte está hoje em exposição na estação do metro do Campo 24 de Agosto.


Reconstituição da Fonte de Mijavelhas ou do Poço das Patas na estação de Metro

quarta-feira, 18 de abril de 2018

(Continuação 16)


Casinha dos Vinhos ou Casa do Despacho dos Vinhos e almotacéis do Porto


A Casinha dos Vinhos situava-se junto do Muro da Ribeira.


Muro da Ribeira no Porto em 1809 – Fonte: Revista Ilustração Portuguesa


“Em 25 de maio de 1632, Álvaro Pires de Távora comprou ao Senado da Câmara do Porto, 80 mil réis de juro assentes na Casinha dos Vinhos, os quais vinculou ao seu morgado. Estes juros, assentes na Casinha dos Vinhos, foram vendidos com autorização real para ajuda de socorro aos Estados da Índia e Brasil.
Em 15 de março de 1672, a abadessa do Convento de Santa Clara, Dona Brites Baptista comprou 40 mil réis de juros, assentes na Casinha dos Vinhos, à filha de Álvaro Pires de Távora que, entretanto, os tinha desvinculado do morgado por troca com outros, podendo, a partir dessa altura, as religiosas cobrarem o dito juro.
As freiras da Santa Clara aplicaram os 40 mil réis na festa da Nossa Senhora das Neves, em missas de sua confraria e obras pias, bem como na festa do Espírito Santo e Senhora dos Paços, no Santíssimo Sacramento e para azeite de sua capela.
Como esta propriedade vai parar às mãos do Morgado da Aveleda, não conseguimos, através do documentos, entender, pensamos que teria vindo junto com a herança de Brás de Abreu Aranha e Araújo, uma vez que este possuía vários bens no Porto.
Cf. ARQUIVO MUNICIPAL DE PENAFIEL – Inventário do acervo documental do Morgado da Aveleda. Penafiel: Câmara Municipal de Penafiel, 2011, p.766; Fonte: “amigosarquivopenafiel.blogspot.pt”


Brás de Abreu Aranha e Araújo era um dos filhos de Brás de Abreu Guimarães que, entre muitos outros cargos que desempenhou, foi deputado da Junta da Companhia Geral do Alto Douro, bem como procurador de El-Rei para administrar e arrecadar as rendas da cidade do Porto, em 1768.
Foi também comerciante, tendo emprestado muito dinheiro a juros.
Julga-se que, Brás de Abreu Aranha e Araújo deve ter sido o filho que teria sucedido a seu pai nos negócios e, é também sabido, que a irmã dele, Joana Felizarda Delfina de Abreu Aranha e Araújo foi casada com o 4º Morgado de Aveleda.
O certo é que os senhores de Aveleda, seja fruto de um negócio, por herança, ou outra forma, acabaram por ficar com a propriedade da Casinha do Despacho dos Vinhos.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

(Continuação 15)


Vila de Gaia e Vila Nova e a ribeira das Azenhas

No século XI, após a expulsão dos muçulmanos do Norte do território, a ocupação na margem esquerda do rio Douro era feita em torno de um castelo que tinha sido recuperado e em que à povoação era dado o nome de Gaia – Vila de Gaia. Esta hipótese é corroborada por muitos historiadores, se bem que outros afirmem que a designação de Gaia já viria dos tempos da ocupação romana.
Esse povoado desenvolver-se-ia na margem esquerda de um ribeiro, mais tarde chamado das Azenhas.
Em época anterior àquela, o referido aglomerado populacional era denominado como “Cale” e tinha a sua existência intimamente ligada a um outro que na margem direita (mesmo em frente a ele) possuía uma praia que funcionava como porto das embarcações que faziam o atravessamento do rio. Este povoado era chamado de “Portus” e situava-se na depois chamada Praia de Miragaia.
Foi assim que o aglomerado populacional com uma ligação forte entre os dois, fosse designado a partir de determinada altura por “Portus Cale”. Portus na margem direita do rio Douro e Cale na margem esquerda do mesmo rio.
A unidade administrativa e territorial que sucederia a “Portuscale” seria sucessivamente o condado Portucalense e depois Portugal.
Por outro lado, na margem direita daquela ribeira das Azenhas, um outro povoado se desenvolveria e, por ser mais recente que o outro, viria a ser chamado de Vila Nova.
A Vila de Gaia viria a receber mais tarde o foral de D. Afonso III, em 1255, enquanto Vila Nova o recebe de D. Dinis, em 1288, estando ambas separadas, então, pela fronteira natural da ribeira das Azenhas ou ribeiro de Santo Antão, que nos nossos dias está praticamente encanado.


A meio da foto a foz da ribeira das Azenhas junto do pequeno estaleiro naval existente no Cais de Gaia – Fonte: Google maps


Aquele castelo de Gaia, diz-se, sofreu a ira das gentes do Porto em 1385, após a vitória de D. João I sobre os castelhanos. Há quem afirme que a outra margem teria apoiado os derrotados e, por isso, a ideia era não deixar pedra sobre pedra do tal castelo.
Como consequência do não apoio ao Mestre de Aviz, a Vila de Gaia e Vila Nova, entre 1385 e 1834, foram ambas integradas no julgado do Porto, perdendo a sua autonomia.
Outros dizem que aquela medida destinou-se a pagar as despesas militares da expulsão dos castelhanos, feitas pelos cidadãos do Porto e a moeda de troca foram os dois povoados.
No final das guerras liberais, a Vila de Gaia e Vila Nova foram, finalmente, agraciadas com autonomia política e, ao fundirem-se, nasceu o actual concelho de Vila Nova de Gaia, a 20 de Junho de 1834.
Nas guerras liberais o castelo de Gaia parece ter dado o último suspiro, como narra o pequeno trecho a seguir:

“Tendo as forças de Miguel I de Portugal se fortificado no local, montando aí uma bateria, dela fizeram fogo sobre o Palácio dos Carrancas onde D. Pedro tinha estabelecido o seu quartel-general. D. Pedro, bombardeado no seu próprio quarto, mudou-se para Cedofeita, e no dia seguinte, em sua visita de rotina às linhas, dirigiu-se à chamada Bateria das Virtudes (onde hoje se encontra o SAOM) com cujo fogo desfez o reduto do Castelo de Gaia. O que restava do antigo castelo desapareceu na ocasião (c. 1833), tendo sido o seu terreno vendido pelo Estado”.
In Fortalezas.org


Local do Castelo de Gaia – Ed. “cavalinhoselvagem.blogspot.pt”



Local do Castelo de Gaia em 1966 – Ed. SIPA


Alguns achados arqueológicos na colina do Castelo de Gaia e, também, próximos da Serra do Pilar, confirmam uma ocupação pré-histórica na actual freguesia de Santa Marinha, e apontam para a existência de povoações, nesta parte do território, desde a época do “Bronze Final” até ao Baixo-império. As características dos achados encontrados reforçam a tese de uma vocação marítima e comercial dos povos aí fixados. O período medievo veio confirmar a importância daqueles povoados ribeirinhos.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

(Continuação 14)


Polícia Sinaleiro

Nos anos 20 do século passado, devido ao aumento da circulação automóvel nas cidades de Lisboa e Porto, assistiu-se ao aparecimento, na senda do que já era feito em algumas outras cidades estrangeiras, de agentes reguladores de trânsito – os sinaleiros.
O polícia sinaleiro, que inicialmente se apresentava apeado e depois num pedestal orientava a circulação viária situado em pontos estratégicos, sendo conhecidos popularmente, pelos "cabeças de giz”, devido ao capacete branco, característico.
A farda compreendia luvas e cassetetes brancos, e uma braçadeira vermelha com um "T” inserido, que mais tarde passou a ser o distintivo das brigadas de trânsito. A esta paramenta, juntou-se pouco tempo depois os punhos, cinturão e talabarte brancos.

Polícia sinaleiro na Praça da Batalha em capa de disco de Tristão da Silva

Como mera curiosidade, diga-se que em 1962 um sinaleiro ganhava 20$00 por dia, em Janeiro de 1974 auferia 50$00, e, logo após o 25 de Abril de 1974, passou a auferir 110$00 diários.

Polícia sinaleiro junto à Sé

Polícia sinaleiro na Praça D. João I

Com o alargamento da semaforização, a gestão do tráfego passou a ser feita à distância, em salas onde estes sistemas são controlados e em 1992 o trabalho daqueles agentes reguladores do trânsito chegava ao fim.
Durante os anos em que estiveram ao serviço, até serem completamente substituídos pelo processo de semaforização, os sinaleiros foram sempre muito bem aceites e acarinhados pela população.
Assim, durante muitos anos, pelo Natal, e com o patrocínio do Automóvel Clube de Portugal (ACP), assistia-se ao “Natal do Sinaleiro” em algumas cidades do País.

Natal do sinaleiro


O Natal do Polícia Sinaleiro surgiu em 1932. Na altura, havia 120 agentes em Lisboa e 57 no Porto.
Era então possível ver junto ao local de trabalho, em plena rua, os montes de ofertas de diversos artigos que junto deles eram deixados.
Depois de várias décadas desaparecidos, e face ao aumento da actividade turística na cidade do Porto pelo Natal de 2014 os sinaleiros voltaram.
Dois agentes foram colocados a comandar o trânsito à entrada da Ponte Luis I. Segundo um comunicado da altura da PSP pretendia-se com a medida:
“Reforçar a componente humana em paralelismo com a sinalização vertical e/ou luminosa existente, dando-lhe um cariz mais dinâmico, objectivo e gestionário que visa facilitar a vida de todos os que circulam nas artérias sinalizadas, nos momentos de maior intensidade de tráfego".

Polícia sinaleiro recentemente, junto à Ponte Luís I

Hélder Pacheco lembra os tempos do sinaleiro:
“No tempo da minha infância não existiam sinaleiros nos cruzamentos, em cima de um estrado. Em certos locais, estavam postados no passeio accionando os comandos de um aparelho parecido com os dos carros-eléctricos manipulados pelos guarda-freios. Dali, faziam mudar as luzes de semáforos colocados sobre a rua. No meu bairro dos Clérigos, havia um dispositivo regulando o trânsito no cruzamento com os Lóios e Rua do Almada.
Ficava no passeio, em frente à Casa Daniel Barbosa, de que um dos membros, com o mesmo nome, seria Ministro da Economia. E, como só apregoava melhorias (no pós-guerra, de fome e miséria era quase provocação), a gente «do contra» começou a chamar-lhe o Daniel das Farturas.
Voltando aos sinaleiros: naquela época de polícia pouco cívica, nada amigável e ainda menos simpática, eram os únicos bem aceites e respeitados. Transmitiam a sensação de utilidade e segurança, e as pessoas gostavam. Embora alguns dessem grandes reprimendas a certos automobilistas, até isso humanizava a relação com a autoridade. (A uma amiga minha, muito azelha, um sinaleiro disse-lhe: «A senhora é tão incompetente que nem a quero ver mais à minha frente!») E a cidade, pelo Natal, rodeava-os de prendas e presentes para lhes agradecer os serviços prestados.
Se querem que lhes diga, em certos locais da cidade tenho a convicção de que um bom sinaleiro despachava melhor o trânsito do que os semáforos. É que, contrariamente a ele, o computador que regula a vida urbana não tem alma, percepção e inteligência activa para reagir interactivamente. É cego, surdo, mudo e estúpido. Por tudo isto, não posso deixar de saudar a decisão da PSP de voltar a colocar um sinaleiro na entrada da Ponte de Baixo, local pior do que mil diabos, onde, a certas horas, ninguém se entendia. Muito bem”.

Polícia sinaleiro ao fundo da Rua dos Clérigos

terça-feira, 10 de abril de 2018

(Continuação 13)


Elevador da Calçada das Freiras


Projecto de 1873 do Elevador, entre o rio Douro e as Devesas


“Esquema do elevador da Calçada das Freiras (hoje chamada Rua de Serpa Pinto), em Vila Nova de Gaia, 1873.
O desenho foi de Raul Mesnier de Ponsard (1848-1914), engenheiro natural da cidade do Porto e ligado a vários projetos de construção de caminhos-de-ferro de cremalheira que existiram em Portugal. O elevador gaiense era puxado por uma locomotiva a vapor e utilizava uma cremalheira para subir a íngreme calçada das Freiras, entre o cais de Gaia e a estação ferroviária das Devesas.
Era muito usado para transportar barris de vinho do Porto entre os armazéns e o cais da Cruz, para além de incluir uma carruagem destinada a passageiros. A linha tinha uma extensão de 750 metros, começou a operar a 17 de abril de 1882 e foi desativada no início da década de 1950”.
Fonte: “portoarc.blogspot.pt”



Aviso sobre funcionamento do Elevador

Postura Regulamentar do Elevador da Rua Serpa Pinto em 1900


Calçada das Freiras, hoje Rua Serpa Pinto c. 1900. São visíveis os trilhos do Elevador – Ed. Foto Guedes


Lateral do Convento na antiga Calçada das Freiras. Os carris são do Elevador em 1939

Em Março de 1961 a C.M. de V. N. de Gaia anuncia que os carris e a cremalheira do Elevador da Calçada das Freiras seriam levantados.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

(Continuação 12)


“A Coxinha do TIDE” e “Simplesmente Maria”

Se recuássemos a 1866 veríamos começar a sair no “Jornal do Porto”, em folhetim, a obra de Júlio Diniz “As Pupilas do Senhor Reitor”.
O autor começara a escrever folhetins para aquele diário em 1862.
Os capítulos, cheios de diálogos desprendidos do narrador, terminavam com suspense e interrogações. "Que mais irá acontecer?", perguntava a leitora.
A resposta obtinha-se comprando o jornal no dia seguinte.
Um outro escritor que por esses tempos viu divulgada nos jornais, em episódios, alguma da sua obra, foi Camilo Castelo Branco.
“As Pupilas do Senhor Reitor” estariam presentes nos anos 40 do século passado em folhetins passados na Emissora Nacional, numa adaptação de Adolfo Simões Müller. 
Em meados dos anos 50, o detergente "Tide" patrocinou um dos maiores sucessos da rádio.
O Teatro Radiofónico já existia, então, na então Emissora Nacional mas, é a transmissão do folhetim, ou radionovela, "A Força do Destino" gravada e transmitida na Rádio Graça sendo depois executadas as respectivas cópias, para a Rádio Clube Português, Emissores do Norte Reunidos e Emissores Associados de Lisboa, que consegue um impacto que marca decisivamente, a história da rádio em Portugal.
Como diz Matos Maia no seu livro "Telefonia":
«emocionou o país, fez chorar centenas de pessoas, criou revolta e raiva noutras tantas.» e diremos nós - a cidade do Porto não fugiu à regra.
Popularmente o folhetim era conhecido como o "Folhetim da Coxinha" ou “A Coxinha do Tide”.
É graças ao folhetim que o Tide se consolida em Portugal.



Publicidade em 1954


“A primeira radionovela portuguesa de grande êxito popular teve um título melodramático apropriado, roubado ao título da ópera de Verdi: A Força do Destino (1955).
Passou na Rádio Graça e os 300 episódios deram para um ano. O argumento centrava-se na personagem do médico Figueirola (Ricardo Isidro), casado com uma mulher má (Lurdes Santos), e apaixonado por Margarida (Lily Santos), que era coxa (como a protagonista de L'Assomoir).
Ficou conhecida por "A Coxinha do Tide", pseudónimo popular que condensava as duas características essenciais do género: o melodrama e o patrocínio dum detergente.
Em 1973-4, muitas mulheres de Portugal renderam-se à novela radiofónica «Simplesmente Maria» (passava na Rádio Renascença), vinda do além-mar latino-americano e adaptada ao rincão português. Recordo-me bem de ver, ao princípio da tarde, mulheres populares sós ou em magotes agarradas aos transístores rua fora, fábricas adentro. Era o 25 de Abril a chamar por elas aos gritos e elas absorvidas apenas pela estória de Maria”. 
Fonte: Ana Machado, In Jornal Público


“Ricardo Isidro e Lily Santos Frias foram os célebres protagonistas dos folhetins Tide, da Rádio Graça, que, depois, vieram a ser conhecidos pelos folhetins da Coxinha. Ele encarnava a personagem de um médico, ela a de uma deficiente (coxeava). Propôs-se operá-la e torná-la uma pessoa normal. Mas apaixonou-se por ela. Após a morte da esposa do médico, este ficou livre e casou com a antiga coxinha. O enredo lento da história, no tocante à agonia de Raquel, a má da radionovela, exasperou as ouvintes do programa das 14:30.
O rápido casamento e o nascimento de uma criança fizeram chegar à estação roupas para bebé, numa confusão entre ficção e realidade. O detergente patrocinador dos folhetins cessou a sua ligação à rádio em 1961, mas ficou marcada na cultura popular radiofónica essa relação, nomeadamente com a Rádio Graça”.
Fonte: Rogério Santos, In “industrias-culturais.blogspot.pt”


Simplesmente Maria era um folhetim que passou na Rádio Renascença, ao longo de 500 episódios (ena tantos...), entre Março de 1973 e Novembro de 1974, transpondo, por isso, o tempo da Revolução do 25 de Abril de 1974. 
Cada episódio ia para o ar depois do almoço, entre as 13:30 e 14:30 horas, mais coisa menos coisa.
A história deste folhetim radiofónico, uma espécie de telenovela sonora, girava à volta de amores e desamores da figura central, uma jovem criada chamada Maria.
Era uma história de "faca e alguidar", muito característica das novelas mexicanas.
Certo é que folhetim prendeu literalmente a atenção de milhares e milhares de portugueses (mulheres em particular) durante quase dois anos. Após o almoço, as mulheres da altura, quase todas domésticas, ficavam de ouvido colado ao aparelho de rádio e lenço na mão para enxugar as lágrimas. Era uma hora "solene" tudo parava para não se perder pitada dos diálogos e discussões da Maria com o Alberto, o Tony, filha da Maria, do Estevão e todos os outros. Só visto...ou melhor...só ouvido. Depois, eram as conversas à volta do assunto, as opiniões e os palpites quanto ao rumo da história. Situação parecida, só se verificaria uns poucos anos mais tarde (1977) com a telenovela brasileira "Gabriela", a primeira a passar na RTP.
A popularidade era tal que, a par da versão radiofónica, era publicada semanalmente a versão em revista, a chamada fotonovela, com edição a cores, que se tornou assim muito popular, rivalizando com as famosas fotonovelas da Corin Tellado que nessa época eram devoradas pelas mulheres portuguesas”.
Fonte: “comolhosdeler.blogspot.pt”


A revista (fotonovela) semanal “Simplesmente Maria”